O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) Carlos de Almeida Baptista Júnior afirmou que o Brasil viveu, após as eleições presidenciais de 2022, um período de forte tensão institucional e que chegou a temer uma possível ruptura entre integrantes das Forças Armadas.
Em entrevista à Folha, Baptista Júnior afirmou que as pressões sobre os comandantes militares foram intensas nos últimos meses do governo de Jair Bolsonaro (PL). Segundo o militar, havia preocupação não apenas com uma eventual tentativa de impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas também com a possibilidade de uma divisão entre as próprias tropas.
“As Forças Armadas são muito grandes. Eu não sabia qual era a posição do almirantado. Eu sabia a posição do almirante Garnier, a posição do Alto Comando da Aeronáutica, mas as pressões foram muito grandes em cima de todos os comandantes militares. Eu temia por uma ruptura entre tropas”, afirmou.
O relato faz parte do livro Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista, recém-lançado pelo ex-comandante, no qual ele descreve reuniões realizadas no fim do governo Bolsonaro e as pressões para que as Forças Armadas participassem de uma iniciativa que pudesse impedir a posse de Lula.
Bolsonaro teria apresentado aos comandantes militares alternativas que poderiam alterar o resultado das eleições e permitir sua permanência no poder. Baptista Júnior afirma que se posicionou contra qualquer medida que ultrapassasse os limites estabelecidos pela Constituição.
A mesma posição, de acordo com o ex-comandante da FAB, foi adotada pelo então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes. A resistência dos dois oficiais teria contribuído para impedir que iniciativas de ruptura avançassem dentro das Forças Armadas.
O cenário descrito por Baptista Júnior se desenvolveu em meio às manifestações de apoiadores de Bolsonaro que, após a derrota eleitoral, permaneceram concentrados diante de instalações militares e defenderam uma intervenção das Forças Armadas.
Para o ex-comandante, a possibilidade de integrantes do Exército adotarem medidas de forma isolada aumentava o risco de uma crise ainda maior. A preocupação, segundo seu relato, era de que ações individuais desencadeassem confrontos entre militares e levassem a uma ruptura institucional.
Baptista Júnior também explicou sua posição contrária à retirada imediata dos manifestantes dos acampamentos instalados em frente aos quartéis. Na avaliação apresentada pelo militar, uma intervenção naquele momento poderia provocar confrontos violentos e ampliar a instabilidade.
O ex-comandante da Aeronáutica já havia relatado anteriormente sua participação em reuniões nas quais foram discutidas alternativas relacionadas à posse de Lula. No novo livro, ele afirma que o risco de uma ruptura institucional chegou a um nível que, em sua avaliação, deixou de ser apenas uma possibilidade teórica.
O relato acrescenta novos detalhes à discussão sobre os acontecimentos registrados nos últimos meses de 2022 e sobre a atuação dos comandantes das Forças Armadas diante das pressões políticas daquele período.
