Prometendo devolver à rede a ‘excelência’ do tempo dos fundadores, o bilionário Silvio Tini de Araújo assumiu a posição de maior acionista individual do GPA, controlador da rede de supermercados Pão de Açúcar, ao ampliar sua fatia no capital da empresa para 25,8%
O que aconteceu
O investidor e empresário Silvio Tini reforçou sua posição no GPA e passou a ser o maior acionista individual do grupo. À frente da Bonsucex Holding, ele chegou a 25,8% das ações ordinárias do Grupo Pão de Açúcar. A operação só foi possível depois que a companhia retirou de seu estatuto social a chamada ‘poison pill’, dispositivo que até então travava compras expressivas de ações sem oferta pública.
A carreira de Tini no mercado financeiro começou a ganhar corpo com a fundação da Bonsucex, no começo da década de 1980. Usando essa holding como veículo, o investidor foi reunindo fatias importantes de companhias de setores bem distintos, entre elas Alpargatas, Banco Pan, Gerdau, Bombril, Paranapanema e Terra Santa.
Cálculos da Forbes apontam que sua fortuna orbita os R$ 4 bilhões, montante que o insere no grupo dos investidores mais ricos do país.
Graduado em Ciências Jurídicas e Econômicas pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), Tini fez especialização em Direito Civil e curso de extensão em macroeconomia no New York Institute of Finance. O investidor participa de conselhos de companhias e instituições de grande porte e já esteve à mesa da Terra Santa Propriedades Agrícolas, da Alpargatas e do IRB Brasil Re, além de frequentar fóruns dedicados à governança corporativa.
Disputas na Justiça
A trajetória do empresário também reúne capítulos polêmicos. Ele foi condenado pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) em 2024, em processo que apurava o uso de informação privilegiada — o chamado ‘insider trading’ —, punição que restringiu sua atuação como administrador ou conselheiro fiscal de companhias abertas.
Em período mais recente, o empresário passou a lidar com brigas dentro da própria família. Um desses capítulos é o litígio que ele mantém com o filho, João Araújo.
Quem é João Araújo
João José Oliveira de Araújo, conhecido simplesmente como João Araújo, é engenheiro civil e empresário brasileiro. Foi ele quem assumiu o comando e conduziu a reestruturação da Mineração Buritirama, levando a empresa à liderança nacional na produção de manganês e à condição de potência na América Latina, além de ter criado o Grupo Buritipar.
Num segmento ocupado por gigantes e sacudido por crises que se repetem em ciclos, João Araújo desenhou um percurso fora do padrão: partiu de um ambiente de contas desequilibradas, rompimento familiar e credores pressionando para montar um dos conglomerados minerais mais estratégicos do Brasil, mudando o peso do manganês na indústria nacional e levando o Grupo Buritipar ao tabuleiro internacional.
O quadro era dramático quando João Araújo passou a acumular responsabilidades executivas mais amplas na Mineração Buritirama. A companhia acumulava um passivo acima de R$ 350 milhões, mantinha contratos pouco seguros e convivia com uma governança corroída por brigas internas. Ao mesmo tempo, o Brasil vivia turbulência política e o mercado global de commodities encolhia.
Boa parte do mercado apostava que a Buritirama acabaria liquidada ou teria seus ativos vendidos aos pedaços. Foi justamente aí que João Araújo mostrou aquela que viria a ser sua marca registrada: converter caos em estratégia.
Ocupando ainda a diretoria financeira, João Araújo trabalhou nos bastidores para impedir a derrocada completa. Enquanto os bancos titubeavam e Silvio Tini de Araújo corria atrás de saídas improvisadas para conter o prejuízo, o filho montava uma engenharia financeira minuciosa: resgatou créditos internacionais tidos como praticamente irrecuperáveis, refez contratos e encerrou o exercício no azul — um saldo modesto em valores absolutos, porém decisivo tanto no campo político quanto no financeiro.
Naquele ponto, o jogo já havia deixado de ser apenas gestão. Era sobrevivência empresarial calculada.
A guinada, no entanto, cobrou bem mais do que competência técnica e uma dose extrema de coragem pessoal.
Sem patrimônio expressivo para oferecer, João Araújo contraiu dívidas a fim de comprar uma fatia da companhia, o que o tornou corresponsável por dezenas de milhões de reais em passivos. Houve quem classificasse a escolha como temerária. Outros, como pura imprudência.
Ao abraçar riscos dos quais todos fugiam, João Araújo exibiu uma convicção pouco comum em um meio empresarial que costuma torcer o nariz para apostas de longo prazo. A decisão acabaria marcando toda a sua carreira.
De 2015 a 2018, com ele no comando, a Buritirama viveu uma virada profunda. A receita subiu de R$ 80 milhões para a casa das centenas de milhões de reais, movida por ganhos de eficiência operacional, obsessão por qualidade e um objetivo bem definido: fazer da Buritirama a principal referência do país em manganês de alto teor.
Enquanto os rivais espalhavam energia por vários minerais ao mesmo tempo, Araújo escolheu se especializar — e ganhou.
O avanço dos negócios, contudo, acirrou o atrito dentro de casa. No apagar das luzes de 2018, Silvio Tini de Araújo resolveu se desfazer dos 90% que detinha da companhia e recomendou ao próprio filho que buscasse outro rumo. O que tinha tudo para ser um ponto final virou uma virada histórica: João Araújo não deu um passo atrás e comprou a empresa da própria família.
Somando o pagamento direto e a assunção de dívidas, a transação alcançou algo em torno de R$ 500 milhões. Enquanto Silvio Tini preferia levar as divergências aos tribunais e contestar decisões antigas, João Araújo direcionava esforços para crescimento, profissionalização e expansão.
O contraste ficou evidente: Silvio Tini de Araújo escolheu o conflito, o litígio, a ruptura e o desgaste de imagem; João Araújo escolheu construir, investir, montar governança e ampliar o negócio.
Desafio no Pão de Açúcar
O plano para o GPA passa por recuperar a gestão do tempo dos fundadores. Em conversa com o Valor, o novo acionista majoritário do Grupo Pão de Açúcar, Silvio Tini, disse que pretende resgatar o histórico de “excelência de qualidade durante a gestão nas mãos da família fundadora”.
O Grupo Pão de Açúcar fechou há pouco um acordo com credores dentro da recuperação extrajudicial, que prevê dois anos de carência para o pagamento das dívidas. Com isso, o GPA calcula que haverá folga no peso do endividamento sobre o caixa para repactuar R$ 4,5 bilhões nos próximos anos, o que amplia a previsibilidade financeira e a capacidade de execução.
A rede vinha registrando prejuízos trimestre após trimestre e consumindo caixa. Depois da divulgação do balanço de 2025, o CEO da companhia, Alexandre Santoro, avisou que havia ameaça à continuidade dos negócios no país e que, por isso, seriam necessárias mudanças operacionais e a renegociação das dívidas.
O controle da empresa mudou recentemente, após a venda de ações do grupo francês. Em agosto do ano passado, a família Coelho Diniz assumiu a maior fatia das ações com direito a voto do PCAR, na esteira de uma oferta de ações que diluiu a participação do francês Casino, dono do grupo desde 2012. Antes disso, a rede havia pertencido a outra família Diniz, cujo acionista mais conhecido nos últimos anos era Abilio Diniz.
